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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

José Sarney, o imperador parte 2



Ex-presidente do Brasil, atual do Senado, ex-Governador do Maranhão, ex-deputado federal da antiga UDN e dono de uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. José Ribamar Ferreira de Araújo Costa construiu em sua carreira política algo que até Hugo Chaves sonha em edificar.
Uma população de súditos que, apesar de não obterem retorno, sempre dão ao seu déspota o poder.
Sim, o título de Excelentíssimo para esse senhor de 79 anos está muito abaixo do que ele realmente é, Sarney “O imperador”, o “Senhor do Maranhão” ou quem sabe “o Príncipe do Brasil” estão muito mais próximos de seu real poder nas terras canarinhas.

Sarney, titulo em homenagem a seu pai, Sarney Costa, é Senador pelo Amapá, apesar de não ter nascido no estado (é de Pinheiro no MA), e sem ao menos morar lá, conquistou os votos das pessoas que residem nesta região.
Talvez seu poder resida no bigode sempre bem cortado e em seu rosto que transpira a mais pura confiança em suas habilidades políticas. Uma pessoa que até mesmo fisicamente é regida pela constância, na postura, no visual, nos gestos e nas ações.

Carreira política:
Maranhão

Zé Sarney começou sua escalada política nos longínquos ano de 1950 como suplente de deputado federal pelo Maranhão, o que dá o título de mais experiente na carreira parlamentar brasileira. Foi eleito pela PSD, partido de apoio à Eurico Gaspar Dutra. Em 1955 efetivou-se no cargo, sempre na base aliada e continuou seu mandato até 1966, sendo que em 59 passou para a UDN que fazia oposição ao atual presidente Jucelino Kubtischek, do PSD, talvez a única vez em que Sarney não foi da situação, mas acredito que já pensasse no futuro.

Em 1964, ano do golpe que retirou João Goulart, ele foi contra a tomada, embora com a instituição do bipartidarismo ele tenha passado para a ARENA, sigla aliada ao governo militar.
Em 1966 assume a cadeira de Governador do Maranhão e assim começa o seu absolutismo no estado. Vale salientar que o Maranhão é a federação brasileira com pior índice de IDH. Até hoje o estado está na mão da família, afinal, a dona da cadeira executiva de lá é Roseana Sarney.
Nos últimos 54 anos a família esteve no governo do estado diretamente por 15 anos e, indiretamente, considere pessoas que obtiveram votos por serem ligados à família, por incríveis 32 anos.

Logo em seu primeiro mandado no executivo, José criou uma lei que regou as terras do Maranhão com o sangue das pessoas que trabalhavam diretamente com ela. Em 1969 surgiu a Lei de Terras (Lei nº. 2579/69), popularmente chamada de Lei Sarney que tinha como conteúdo a colonização de áreas não exploradas levando ao povoamento amazônico e também seu desenvolvimento.

Claro, acabou virando uma pandemia de terras griladas e invasões ilegais. Muitos investidores do sul e centro-oeste do país foram para a região, “empurrando” os cidadãos para cada vez mais longe dos melhores locais, através da compra a preços ínfimos de suas propriedades mesmo que para isso o uso de jagunços tenha sido necessária. O desenvolvimento transformou-se em latifúndios. Por volta de 1.500.000 de hectares pararam nas mãos de grandes senhores da terra.

Segundo Luis Antônio Camara Pedrosa (ex- assessor jurídico da Comissão Pastoral da Terra de São Luís/MA):
“Data desse período a pilhagem que se sucedeu sobre as terras
devolutas do Estado. A grilagem, implantada com a vinda das
grandes empresas do sul e do centro-oeste, açambarcou
inclusive os corredores de 200 Km de largura ao longo da
rodovias, destinadas por decretos à colonização. O único refúgio
para os camponeses chegou a ser os 30 metros de terra ao
longo das rodovias”

Além disso, vários camponeses foram feridos em confrontos com a polícia, caso de Manoel da Conceição preso em uma Assembléia de lavradores. Ele foi torturado e perdeu a perna por causa de um ferimento à bala na ocasião.

Segundo dados do IBGE de 1970, as propriedades com menos de 100 hectares, ou seja, que não são consideradas latifúndios, representavam 87,6% dos estabelecimentos e apenas 5,6% da área rural do Maranhão. Em 1995, 26 anos da Lei Sarney, eram 76,5% ocupando diminutos 3,6%.

Vale salientar que o desenvolvimento que Sarney prometeu não aconteceu. Maranhão tinha o pior índice de mortalidade da época e uma população ruralizada, longe dos centros de saúde das cidades.

Meio século depois e o estado, como já dito, está na lanterna do ranking do IDH e 52% da população ainda vive dos produtos do campo.




domingo, 6 de dezembro de 2009

José Sarney, o imperador parte 1


Começo aqui uma sequência de histórias sobre uma das figuras mais marcantes do território nacional. José Sarney.
Curiosamente o primeiro texto não será meu. Ele é retirado do livro "Honoráveis Bandidos" do jornalista e escritor Palmério Dória.
Como foi a única fonte que achei falando sobre a infância e a fase anterior à carreira política, tenho convicção que é ético colocar o texto aqui, ao invés de simplesmente parafrasear.

A URNA DO ZÉ


Uma história alegra o anedotário político maranhense desde os idos de 1950. Pelas ruas de São Luís, lá vai o desembargador Sarney Costa. Carrega numa das mãos alguns livros, e uma caixa de madeira embaixo do outro braço. Tem forma de pirâmide, mas com o topo cortado e um tampo com uma fenda no centro. Ele só largava a caixa e os livros se passasse em frente de alguma igreja, para poder ajoelhar-se e fazer o sinal-da-cruz.

O desembargador, que chegou a presidente do Tribunal de Justiça, tinha um tique não muito raro, de piscar e repuxar para cima um dos olhos junto com o canto da boca. Foi ao Rio de Janeiro, inclusive, consultar-se com um grande neurologista que lhe indicaram, doutor Deolindo Porto. Mas desistiu na primeira consulta: o homem tinha o mesmo cacoete que ele.

O Sarney pai, que mais tarde daria nome a povoações e a tudo quanto é logradouro e prédio público Maranhão afora, quando o paravam na rua e perguntavam que caixa era aquela que carregava, respondia, batendo na madeira:

“Esta é a urna do meu filho Zé.”

O povo aumenta mas não inventa. A parábola da urna evidencia a quem José Sarney deve sua carreira política. Ele começa sem identidade própria. É apenas o “Zé do Sarney”, por sua vez com tal nome registrado porque o avô do nosso herói, diz a história, quis homenagear um inglês ilustre que aportou a serviço no Maranhão e a quem todos chamavam de Sir Ney.

‘AL CAPONE SERIA MERO APRENDIZ’


O pai é quem lhe abre todas as portas. A família Costa veio do interior, de Pinheiro, no oeste, na região da Baixada, que forma grandes lagos na época das chuvas. Sarney, com 15 anos, começou a estudar no Liceu Maranhense. Aderson Lago, de tradicional estirpe política, ex-chefe da Casa Civil do governador maranhense Jackson Lago [cassado em abril de 2009], é uma memória viva daqueles tempos:

“Sarney nasceu, cresceu e criou dentes dentro do Tribunal”, diz Aderson, que faz o seguinte resumo: “O pai não era um fazendeiro abastado, empresário, não era porra nenhuma. Nunca tiveram nada. Nunca acertaram nem no jogo do bicho. Sarney não tem como explicar a fortuna que tem. Ele mesmo contou, quando presidente da República, na inauguração do Fórum Sarney Costa, que o pai teve que vender sua máquina de escrever para mantê-lo por uns tempos.”

Nascido em 24 de abril de 1930, pouco antes da revolução modernizadora liderada por Getúlio Vargas, José Sarney cursou Direito e iniciou-se na política estudantil na década de 1950. O pai arranja-lhe o primeiro emprego, secretário do Tribunal de Justiça. Nessa época, os processos eram distribuídos por sorteio. Colocavam os nomes dos desembargadores numa caixinha e o secretário do Tribunal era quem sorteava o relator de cada processo. Seus primeiros “negócios” foram feitos nessa caixinha. O desembargador que ele “sorteava” era sempre aquele que resolveria o caso conforme a sua conveniência.

Aderson Lago narra a história de certo engenheiro italiano que havia construído a fortaleza de Dien Bien Phu, no Vietnã, e para cá veio tocar a construção do porto do Itaqui, em São Luís – por onde meio século depois sairia o minério de Carajás e outras mil riquezas do Brasil.

Surgiu uma demanda judicial contra a empresa do italiano. No último julgamento, que a empresa perderia e, por isso, quebraria, descendo a escadaria do Tribunal, o italiano, referindo-se a Sarney, comentou com seus advogados:

“Se Al Capone estivesse vivo e aqui estivesse, diante desse rapaz de bigodinho seria um mero aprendiz.”


Na juventude, Sarney usava bigodinho à Clark Gable, como o cantor das multidões Orlando Silva e o Cauby Peixoto. E, como os colegas de sua idade, sonhava com um lugar na Academia Maranhense de Letras, que um dia ele conquistaria. Afinal, São Luís era a Atenas Brasileira. Ou melhor, segundo línguas mais realistas: a Apenas Brasileira.

Aos 24 anos, sem ter sido sequer vereador, Sarney se elege quarto suplente de deputado federal nas eleições de 3 de outubro de 1954, pelo Partido Social Democrático, o PSD de Victorino Freire, realizadas pouco depois do suicídio de Getúlio Vargas, e quem viveu na época não duvida que tal feito se deveu a fraude na 41ª Zona Eleitoral de São Luís.

Nesse episódio é que se viu, durante um trote de calouros da Faculdade de Direito, um cartaz que mostrava o desembargador Sarney Costa com uma urna embaixo do braço e o balão:

“Essa é do Zé meu filho.”


A escada sempre era o pai. Aderson conta como Sarney se inicia de verdade na política:

“Ele começou como oficial de gabinete do governador Eugênio Barros, trabalhava no palácio. Pela influência do pai, sempre. Ele foi oficial de gabinete porque era brilhante? Não. Sim porque o pai era desembargador e a Justiça no Maranhão estava sempre atrelada ao governo.”

Em 1958, sim, ele então se elege deputado federal, já pela UDN, União Democrática Nacional. Não é mais José Ribamar Ferreira de Araújo Costa. Tomou para si o nome do pai e se tornou José Sarney. Assim, chega à Câmara Federal, ainda no Rio de Janeiro, no Palácio Tiradentes, e assina o termo de posse a 2 de fevereiro de 1959, data que ele considera oficialmente com a do início de sua carreira política – cujo cinqüentenário ele comemorou em dia tão anuviado, apesar do sol sobre Brasília, naquele 2 de fevereiro de 2009 [dia da posse de Sarney, pela terceira vez, na Presidência do Senado].

Não lhe saía da cabeça o filho [Fernando], cérebro do império Sarney, transformado em caso de polícia, enquadrado pelos federais num rosário de crimes a sujeito a qualquer momento a ganhar um par de algemas em torno dos pulsos e ir parar atrás das grades.